Pobre, extremamente pobre. E também estava suja e, tão mal vestida, que sua indumentária mais parecia uma armadura de batalha. Observá-la não fazia muito sentido, mas ele continuou. Flertava com seus movimentos, ora leves, ora truncados, que reviravam o lixo numa sofreguidão esperançosa. Então era isso! Sua desenvoltura era o que lhe cativava. Aguardou outras surpresas. Previu novidades. A pele suja e as mãos sabidamente mal tratadas, logo atrairiam novamente o seu olhar curioso: achou entre as pilhas de papéis amarrotados e sujos, um livro. E o abriu. Por entre as pilhas de detritos , achou um livro. Quisera ter poderes de super homem para, apenas com um olhar àquela distância, saber de qual livro se tratava, qual título, qual autor. A magia das letras, que postas em razoável ordem de idéias, formatavam uma literatura, e este livro voltava a cumprir o seu papel principal. O quão improvável seria para um escritor pensar que sua criação, a qual se dedicou por meses, quiçá anos, o livro que escrevera com tanta dedicação e presteza, se destinaria a lixeira, e que neste local seria lido por uma humilde catadora! Mas ali estava ele, sendo calmamente folheado, delicadamente amparado naquelas mãos calejadas......
Contos, notas, interpretações, textos, lançamentos de livros(meus inclusive), pensamentos,críticas, músicas, notícias, fotografias, poesias e os caminhos atuais e históricos que cruzam este Rio de Janeiro de meu Deus!
domingo, 21 de novembro de 2010
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Tão perto, tão longe.
Apertou o passo após verificar as horas. Estava atrasado. Por mais que lhe trouxesse alegria, aquele encontro não tivera a aprovação de ninguém; esposa, filho, mãe, todos unânimes: “ – Não vá!” Falar é fácil, não poderia dizer um não àquele convite.
Respirou aliviado quando viu o Largo da Carioca. Bastariam mais alguns passos e logo chegaria. Como seria encontrá-lo? Quais perguntas lhe faria? Marcara o encontro precisamente no centro do grande calçadão para ser visto, não criando dificuldades para ser encontrado. Ficou ali esperando, e o que seria um pequeno atraso, revertia-se numa espera aflitiva. Olhava para todos os lados, ansioso, imaginando vê-lo vindo. Cumprimentou por vezes desconhecidos que se aproximavam, na ilusão de que devia ser “ele” que se aproximava. Após o terceiro cumprimento inócuo e enganado, parou de olhar nos olhos dos outros. “Ele” que o visse, afinal o avisara da roupa que usaria, do seu cabelo, pele, etc. Somente agora caía em si: não perguntara nada sobre “ele”! Mal sabia o primeiro nome, cor do cabelo, roupa, pele, nada. Nada perguntara nada sabia.
Aguardou pacientemente durante 2 horas ali no centro do calçadão, em pé, a vista de todos. Vários eram os passantes, somente “ele” não vinha. Nunca o vira, nunca ligara. Amargara toda uma vida sem pai, pensando exatamente em como ele era, e agora que conseguira marcar um encontro, lembra de que nada perguntara. “Ele” tinha então esta vantagem, caso mudasse de idéia num último momento. Percebeu o atraso já adiantado, que o celular continuava mudo, que o dia estava indo embora. No céu, uma pesada nuvem começava a encobri-lo, e minguava o resto de luz do dia. Brotou nele então uma amarga lucidez, como nunca antes houvera sentido. “Ele” nunca que viria. Nunca o procurara, tirando esse primeiro e único telefonema, nunca telefonara, não seria agora que apareceria. Fora inocente e surdo, burro até. Balbuciou a palavra “pai” umas dez vezes, enquanto corriam dos seus olhos fios de lágrimas........
Aguardou pacientemente durante 2 horas ali no centro do calçadão, em pé, a vista de todos. Vários eram os passantes, somente “ele” não vinha. Nunca o vira, nunca ligara. Amargara toda uma vida sem pai, pensando exatamente em como ele era, e agora que conseguira marcar um encontro, lembra de que nada perguntara. “Ele” tinha então esta vantagem, caso mudasse de idéia num último momento. Percebeu o atraso já adiantado, que o celular continuava mudo, que o dia estava indo embora. No céu, uma pesada nuvem começava a encobri-lo, e minguava o resto de luz do dia. Brotou nele então uma amarga lucidez, como nunca antes houvera sentido. “Ele” nunca que viria. Nunca o procurara, tirando esse primeiro e único telefonema, nunca telefonara, não seria agora que apareceria. Fora inocente e surdo, burro até. Balbuciou a palavra “pai” umas dez vezes, enquanto corriam dos seus olhos fios de lágrimas........
Assinar:
Comentários (Atom)