domingo, 21 de novembro de 2010

Lixão

                                                
     

        Pobre, extremamente pobre. E também estava suja e, tão mal vestida, que sua indumentária mais parecia uma armadura de batalha. Observá-la não fazia muito sentido, mas ele continuou. Flertava com seus movimentos, ora leves, ora truncados, que reviravam o lixo numa sofreguidão esperançosa. Então era isso! Sua desenvoltura era o que lhe cativava. Aguardou outras surpresas. Previu novidades. A pele suja e as mãos sabidamente mal tratadas, logo atrairiam novamente o seu olhar curioso: achou entre as pilhas de papéis amarrotados e sujos, um livro. E o abriu. Por entre as pilhas de detritos , achou um livro. Quisera ter poderes de super homem para, apenas com um olhar àquela distância, saber de qual livro se tratava, qual título, qual autor. A magia das letras, que postas em razoável ordem de idéias, formatavam uma literatura, e este livro voltava a cumprir o seu papel principal. O quão improvável seria para um escritor pensar que sua criação, a qual se dedicou por meses, quiçá anos, o livro que escrevera com tanta dedicação e presteza, se destinaria a lixeira, e que neste local seria lido por uma humilde catadora! Mas ali estava ele, sendo calmamente folheado, delicadamente amparado naquelas mãos calejadas......

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Tão perto, tão longe.


        Apertou o passo após verificar as horas. Estava atrasado. Por mais que lhe trouxesse alegria, aquele encontro não tivera a aprovação de ninguém; esposa, filho, mãe, todos unânimes: “ – Não vá!” Falar é fácil, não poderia dizer um não àquele convite.

        Respirou aliviado quando viu o Largo da Carioca. Bastariam mais alguns passos e logo chegaria. Como seria encontrá-lo? Quais perguntas lhe faria? Marcara o encontro precisamente no centro do grande calçadão para ser visto, não criando dificuldades para ser encontrado. Ficou ali esperando, e o que seria um pequeno atraso, revertia-se numa espera aflitiva. Olhava para todos os lados, ansioso, imaginando vê-lo vindo. Cumprimentou por vezes desconhecidos que se aproximavam, na ilusão de que devia ser “ele” que se aproximava. Após o terceiro cumprimento inócuo e enganado, parou de olhar nos olhos dos outros. “Ele” que o visse, afinal o avisara da roupa que usaria, do seu cabelo, pele, etc. Somente agora caía em si: não perguntara nada sobre “ele”! Mal sabia o primeiro nome, cor do cabelo, roupa, pele, nada. Nada perguntara nada sabia.
        Aguardou pacientemente durante 2 horas ali no centro do calçadão, em pé, a vista de todos. Vários eram os passantes, somente “ele” não vinha. Nunca o vira, nunca ligara. Amargara toda uma vida sem pai, pensando exatamente em como ele era, e agora que conseguira marcar um encontro, lembra de que nada perguntara. “Ele” tinha então esta vantagem, caso mudasse de idéia num último momento. Percebeu o atraso já adiantado, que o celular continuava mudo, que o dia estava indo embora. No céu, uma pesada nuvem começava a encobri-lo, e minguava o resto de luz do dia. Brotou nele então uma amarga lucidez, como nunca antes houvera sentido. “Ele” nunca que viria. Nunca o procurara, tirando esse primeiro e único telefonema, nunca telefonara, não seria agora que apareceria. Fora inocente e surdo, burro até. Balbuciou a palavra “pai” umas dez vezes, enquanto corriam dos seus olhos fios de lágrimas........