“ As asas não me cobrem a fronte, quando vôo em seu encalço. Destino apenas uma parte da força ao vôo, a outra parte ao meu alvo.”
Sinto que agora acabou. Onde e como acabaria, foi o que me perguntei por anos, pois então agora eu tenho a resposta. Por hoje estou sem amanhã! Então eu posso hoje, por não ter um belo amanhã, ter um outro dia, e este não acabará. Hoje estarei bem aqui, neste ponto de ônibus, descansando nesta trincheira, fitando com meus olhos, pequenas imagens que ainda consigo ver. As nuvens ora cobrem o céu, ora me cobrem a memória. Arde meu peito, não preciso sair daqui. Aliás, nem sei se consigo me mover. Estou no centro da cidade. Sei a hora do ônibus, da abertura da padaria, a hora certa com que o Sr. Vasconcelos irá chegar na empresa... Talvez possa adivinhar quantas vezes ele olhará no relógio, me esperando. Chego sempre atrasado, mas também sei que hoje não chegarei. Agora me sinto um beija-flor! Alegre, altivo, livre e leve. Acho até que compraria flores para homenagear a minha mãe. Acho que nunca comprei flores para ela. Com certeza não. Pois hoje, eu compraria. Mas sei que não conseguiria entregar... . Até que este meu último dia se acabe pelo tempo que me resta, ou ainda, que meu jovem assassino e algoz retorne, o que não seria previsível, esperar e imaginar serão meu martírio e prazer. Afinal, os finais sempre acontecem, todos os dias, em todos os lugares. Tentarei manter alguma leveza e pureza de alma.
Hoje tive a nítida sensação do quanto que a humanidade é cínica, ou foi uma ligeira impressão? Não filmei ou fotografei, mas há testemunhas. Com certeza não sou do tipo que filma e fotografa essas situações. Mas as visualizo com interesse. Acho que todo o mundo, não? Acho que não. Achei que todos olhavam para esta situação, mas não foi assim. Assisti a uma violenta discussão de um casal no meio da rua. Se tivesse filmado, passaria nas TV's! Discussão boba, inchada de antigas mágoas, acusações mútuas de desamor e desinteresse pelo que um e outro fazem; mas acabou muito mal. Não foi somente uma tapa na cara, foi uma tatuagem que o cara fez no rosto dela, que ficará marcada em sua pele e nos seus sentimentos para sempre. Reparei nos motivos fúteis, mas eram os motivos deles. Se anos depois puderem rever o que disseram, ficarão estupefatos com o tamanho da barbaridade que protagonizaram por tão pouco. Não foi só o tapa, a humilhação, as pessoas correndo, umas para ver, outros para não ver. Houve também uma adubação nos sentimentos dos que assistiam. Inflaram-se desejos bons e maus. Mas reparei que a maioria tentava não interferir com os dois. É simples, mas exprime bem a intenção humana, “ não meter a colher” na discussão bisonha, rancorosa. Mas uma senhorinha veio lá do final da turba, inseriu-se em meio aos dois, e humanamente, como um homem de “H” maiúsculo, pôs o dedo na cara do marmanjão e lhe disse poucas e boas. Aliás, nem poucas nem boas, disse várias verdades pontiagudas. O rosto da mulher sangrando, a alma sangrando, eu olhando. Detectava um mundo distante do meu dia a dia, mas que incide em meu derredor. Nem imaginei que logo depois seria comigo que a humanidade iria “cinicar”.
Hoje tive a nítida sensação do quanto que a humanidade é cínica, ou foi uma ligeira impressão? Não filmei ou fotografei, mas há testemunhas. Com certeza não sou do tipo que filma e fotografa essas situações. Mas as visualizo com interesse. Acho que todo o mundo, não? Acho que não. Achei que todos olhavam para esta situação, mas não foi assim. Assisti a uma violenta discussão de um casal no meio da rua. Se tivesse filmado, passaria nas TV's! Discussão boba, inchada de antigas mágoas, acusações mútuas de desamor e desinteresse pelo que um e outro fazem; mas acabou muito mal. Não foi somente uma tapa na cara, foi uma tatuagem que o cara fez no rosto dela, que ficará marcada em sua pele e nos seus sentimentos para sempre. Reparei nos motivos fúteis, mas eram os motivos deles. Se anos depois puderem rever o que disseram, ficarão estupefatos com o tamanho da barbaridade que protagonizaram por tão pouco. Não foi só o tapa, a humilhação, as pessoas correndo, umas para ver, outros para não ver. Houve também uma adubação nos sentimentos dos que assistiam. Inflaram-se desejos bons e maus. Mas reparei que a maioria tentava não interferir com os dois. É simples, mas exprime bem a intenção humana, “ não meter a colher” na discussão bisonha, rancorosa. Mas uma senhorinha veio lá do final da turba, inseriu-se em meio aos dois, e humanamente, como um homem de “H” maiúsculo, pôs o dedo na cara do marmanjão e lhe disse poucas e boas. Aliás, nem poucas nem boas, disse várias verdades pontiagudas. O rosto da mulher sangrando, a alma sangrando, eu olhando. Detectava um mundo distante do meu dia a dia, mas que incide em meu derredor. Nem imaginei que logo depois seria comigo que a humanidade iria “cinicar”.
Quando olho este céu azul, esta brisa grata e adocicada da manhã, esse sol reluzente mesmo em um outono, sinto-me muito bem. Novamente a sensação de ser um colibri. Veria a mesma coisa em pé, mas deitado nesta trincheira, ferido de morte no peito, a visão é mais abrangente. A brisa grata e refrescante, o sol aquecedor de todos nós, o céu azul. E o amanhã? Somente esta fragilidade de homem e a volatilidade do espírito o separa de mim. Mas não atirei em ninguém, eu era o alvo. Serei um soldado ferido imaginando estar em uma trincheira? Estarei na minha cama, imaginando estar aqui na trincheira ferido? Perseguir o meu ladrão de carteiras, me fez encontrar o meu ladrão de vidas.
Sinto uma mão no meu bolso. Virei-me rápido, mas não há mais ligeireza em meus movimentos. Mas investi tão veloz quanto pude contra aquela mão, mas era uma mão profissional. Entrou e saiu do bolso tão ligeira quanto um colibri. Sugam o que é dos outros. Até no bolso vazio dos velhos soldados esses garotos caçam. Alguns dos passantes viram, outros me ouviram gemer, mas não se aperrearam. Por vezes acredito que não estou aqui. Olham-me, todos, mas nada acontece. Esperam o que? Não ouvi, acho que nem vi o tiro, e sentir agora esse imobilismo, esta aura em todos de que “algo esta errado, mas nada posso fazer”, e o sentimento de pena que se expande em todos e empesteia os olhares, me incomoda. Se ao menos aquela senhorinha cheia de decisão aparecesse, enquadraria esse ladrãozinho de soldado velho, agora quase morto.
Hoje eu passaria bem perto do rio, e jogaria nele as flores caso eu houvesse comprado para a minha mãe. Agora mais não. Seria uma forma de presenteá-la, já que sempre fui bem néscio com essas coisas. Melhor esquecer o meu assassino.
Penso agora que é pela quinta vez que o Sr. Vasconcelos olha o seu relógio. Balbucia impropérios, e define pela enésima vez as resoluções que tomará para que tais atrasos não mais aconteçam. Estou nos instantes finais mas detalhes ainda me perseguem. Como assim? Detalhes, como o Sr. Vasconcelos preocupado com a hora, e quem se preocupará comigo? Quero que ele se dane!
Mudam os homens atrás de novidades, mudam de bairros, cidades, e até países, mas se esquecem que os problemas moram dentro deles mesmos. As cidades grandes alertam a todos: sumam-se daqui! Não há paisagens calmas e tranqüilas nas ruas atuais. Fecho os olhos e me vejo na rua, descalço, franzino, mas atuante, apostador, beligerante! Domino o meu mundo, e aqui de cima do morro de Santo Antonio, diviso a cidade. Proponho que seja minha, ao que todos os outros garotos em uníssono aceitam. Agora? Agora sou um farrapo do que eu era, um pequeno pedaço do antigo. Até o morro foi demolido. Dobro as esquinas, conheço elas, mas elas me conhecem?
Paralisado como estou, busco passar o tempo. Sabem o que eu vi? Pássaros que voavam em zigue zague, qual esquadrilha da fumaça. Sem esforço, utilizando as ascendentes, atenuantes e as cruzadas, passam uns pelos outros. Falam-se? Talvez sim, afinal passam tão perto um do outro...! Também sinto o cheiro de umidade, da terra fofa e molhada, e sinto frio. Frio igual ao que sinto no ar condicionado. Quando me vejo, estou frente à frente com o Sr. Vasconcelos. Ele ri. Mas é o sorriso dos déspotas, o sorriso dos carrascos. É o Sr. Vasconcelos exercitando seus impropérios vesiculares, pontuais e lesionais na minha cara. Saio mancando do esporro que tomei, mas assobio um mantra, melodia dengosa, e como tal, irônica, e logo à frente melhoro. Soldado velho tem seus truques para sobreviver. O que fazer aqui? Sinto uma ardência no corpo, no peito; será que realmente levei um tiro? Tiros de fuzil são os piores, entram arrebentando os nervos, e as carnes explodem junto com as veias e vasos, estraçalham a gente e ardem. Sinto esta ardência enquanto inicio o meu trabalho de marketing! Atendo um a um, a linha congestionada me entristece. Mentirei, aporrinharei, venderei e desligarei na cara quantas e quantas vezes eu achar necessário, até que algum puxa saco me diga: “ – Uau! Você vende muito rápido! Rápido? Vocês não viram nada ainda, digo. Nem vou ao banheiro, nem levanto da cadeira. É um, é dois, é três, chego à dez, vinte, o dobro! Chegam supervisores, gerentes, treinadores, trainees, estudantes. Chego a quarenta vendas. Sucinto, rápido, e ainda assobio mais um mantra. Embasbacam comigo. Soldado velho tens suas artimanhas. Olho o relógio, ensaiando a minha saída. Tchau Sr. Vasconcelos! Já já vou voltar, a ardência continua, mas os pássaros, o céu azul e as nuvens, continuarão? Para eles haverá um amanhã. Meu tropeço foi hoje.
O sol ainda não partiu de todo, quando deixo o escritório e saio à rua. Ainda dá tempo de participar desse abatimento do dia, saudar a lua, tomar uns chopes! Mas não me apetece hoje um chope. Penso neles, mas não me apetece. Corro pela rua, as mesmas lojas, personagens freqüentes daquela rota, saúdo um, dois, chega! Rumo para casa. São esses anos violentos, que me tornaram assim: capacho, ausente, resmungão. Sinto o cheiro do céu e do ar aquecido. Uma pequena nuvem cruza solitária à minha frente, encobrindo os pássaros. E esses brilhos? Reflexos do sol morrente ou iluminação da rua? A cidade me cansa, mas é um consumo lento, que somente no final dos anos percebe-se o quanto fomos sugados. E os anjos? Estarão vendo tudo isto? Creio em anjos e em demônios. Demônios são ruins de localizar, e quando localizados, ruins de mandar embora; confundem-se com os chatos, e, sabe-se, os chatos vão e voltam. Presumo que os demônios também. Anjos são mais fáceis de identificar. Não pelas asas, as quais temo que não tenham, mas pelos olhares calmos e sinceros. Estão sempre solícitos para sorrir e ensinar. Preciso sair esta noite com anjos. Existirão hoje anjos que me queiram? Serão anjos que virão me resgatar? Ligarei para algumas pessoas e escolherei a melhor compainha disponível. Sugarei o máximo desse resto de dia que me cabe. O amanhã existirá, eu estarei lá, ou continuarei aqui deitado em minha trincheira? Ficarei na expectativa dessa morte ou o meu inimigo voltará, colocará a sua cabeça na beirada do buraco, e vendo-me arfante, mais morto que vivo, me deixará junto às lembranças, nesta terra fofa e úmida, e neste céu azul turquesa! Ou num acerto de contas com sua própria fraqueza, mire mais uma vez em meu peito, e meta-me a derradeira bala. Ouvirei seu trajeto ou algum anjo se insinuará na trajetória?
As luzes piscam em série, paralelas, faiscantes, inexatas e ininterruptas. Estou de novo na rua, e eu não queria me ver lá. Estou melhorando? Ou manterei a mesma cabeça dura de sempre? Inquieto-me mais uma vez, pois sei que não haverá amanhã! Também não mais verei o Sr. Vasconcelos. Assobio mentalmente mais uns mantras, e então retorno 40 anos de memória e a vejo vindo, sorridente. É minha menina, meu amor. Meu desejo cresce tanto, a ponto de fazer-se notar nas minhas calças. Ela enrubesce, vigia, mas finge não notar. O beijo é terno, os elogios idem, mão na mão e nas costas também. Somos ternos um com o outro. Comemoraremos este ano 5 anos de namoro.
Arde o meu peito, e seguramente há mais aves no céu hoje que ontem. Amanhã eu não sei, nem saberei. Me assalta uma sede de seco, sede de deserto, embora o cheiro de umidade ainda paire no ar! O ar é suave, e somente a brisa contínua arrefece a sede. A expectativa só faz aumentar. O meu assassino me revisitará? Quais olhos postará sobre mim: o de um sanguinário assassino, ou de um menino mal treinado e morto de medo? Era o que me faltava, ter que acalmá-lo, treiná-lo em tão pouco tempo, explicar-lhe a dor, o amor, que eu estou muito cansado hoje.
A noite é sonolenta, modorrenta, mas terna. Aviso a Magdalena sobre isso. Fico mais tenso, mas não demonstro. Demonstro inquietação e arrependimento. Quisera ter ido a outro lugar, quisera que as coisas entre nós tivessem sido diferentes. Amar, amar a perder a vida, as vestes, os dias. Despi-la em imaginação e em verdade, nua e cozida. Come-la em belos nacos a noite toda! Estacionar dentro dela, a mais não poder. Ela é minha, somente minha! Mas hoje não houve este encontro. Hoje o tempo é pequenininho, minúsculo, eu diria. Estamos terminais! “─ Vamos, vamos, vamos!” tento manipular a sua vontade, escutando-a retroceder com a mesma regularidade da minha voz insistente: “aonde, aonde, aonde?” Aonde der, vamos aonde der, vamos nos dar! Hoje somaremos, e aconteça o que acontecer, hoje amaremos para sempre, ou nunca mais! Mas Magdalena me foge outra vez, o céu retorna, retorna a ardência no peito, e o medo de morrer para sempre. Perco Magdalena mais uma vez.
Retorno a época, em que eu servia na força. Sargento Batráquio me olha desdenhoso. Ele ri da minha falta de jeito e me pede calma. “- Calma cabo, cabo, caaaaabo...!” E isto lá é jeito de falar? Falta-lhe traquejo.
“ - Aonde coloco estes corpos, sargento?” Que pergunta capciosa, hem? Quebrei-lhe a espinha, o intelecto, a hierarquia... Ledo engano. “– Aonde você quiser, são inimigos políticos, se vira, se vira! Cabo, cabo, caaaaabo!” Que guerra é esta em que vivemos, a cada esquina um corpo. Como depois erigir monumentos a todos estes garotos? Vão lembrar-se de mim, aquele que catava os corpos de garotos depois dos tiroteios?
Sargento Batráquio tem este apelido, por que tem cara de sapo. Com o pouco treinamento que tem, torna-se ridículo quando quer dar ordens. Saltita para dar ordens, corre quando tem que andar, anda quando tem que correr: um verdadeiro sapo! Encontrei-o uma vez na cidade. Era sábado à noite, quando eu voltava de uma noitada. Apresentei-o a Magdalena, que era então apenas uma recente conquista. Estava bastante orgulhoso de mim mesmo. Cumprimentou-nos já se afastando, tímido, saltitante. Quando contei dos pormenores à Magdalena, ela riu a mais não poder. Lembrou que realmente ele falava saltitando, e atalhou “– tem mesmo cara de sapo!” Pois foi graças ao Sargento Batráquio que pedi a baixa, e saí da polícia. Obrigado Sargento! “ – Cabo, cabo caaaaabo!”
Seria o Sr. Vasconcelos ou o Sargento Batráquio: qual deles teria razão sobre mim? Por quais motivos eles fizeram tanto esforço para que eu os detestasse? Atrasado, ou incapaz? Extremamente capacitado, ou irônico? As luzes da cidade passavam rapidamente, enquanto nos dirigíamos ao motel. Magdalena se retorcia em pequenos pânicos, e em uma insegurança atroz: “ não sei se posso, você sabe que eu não posso” Habituei a estes “nãos” e aos horários truncados que ela tinha. Magdalena estava na faculdade. Alguns dias transcorriam tranqüilos, com direito a um bom e gostoso namoro. Em outros dias não tinha tempo nem para um “oi!”! Eu não a via nos dias de aulas integrais. Já estávamos na Barra, os motéis iluminavam alguns casais. Desisti próximo a entrada. Desviei o táxi e rumamos para a sua casa. Os anos haviam levado embora o nosso amor!“ Tchau, tchau, adeus! Faziam 40 anos que não a via e nem pensava nela. Pois agora a sua face, o seu cheiro e seus “nãos” voltavam com força total, somente por agora, por hoje.
A terra afundava na altura da omoplata, forçando a coluna, me tirando o ar. O Sr. Vasconcelos teria rido de tal situação. Espero que os anjos estejam vendo tudo isso! Sargento Batráquio diria “ se vira! Cabo, cabo caaabo! ” Magdalena diria que “hoje não, você sabe, hoje não” Ri. Estando no centro da cidade, em pleno Largo da Carioca, toda aquela imprecação não fazia sentido.
Estando nesta trincheira, além do céu, espreitava também avistar meu algoz, meu “Pixote” mal treinado. Colocasse ele a cara na reta, eu o identificaria. Olhando em volta, bem dentro dos inúmeros olhos que me olhavam, procurava por ele. Eles sempre voltam ao local do crime, dizem. Mas dele, não tive visão. Algo em mim pedia: deixe o estudante praticar um pouco na sua cara. Deixe, afinal, um ponto ele já marcou! Em outras ocasiões pensava: o maldito botando a cara, digo tchau pra ele, e eu é que atiro, cuspo, sei lá! Seria ele um demônio? Um jovem demônio, lembro da sua voz ecoando dentro da minha alma: “ ─ não reage não, tio!” E ao “tio”, que tentava tirar o atraso da hora, foi dado a oportunidade de reagir? Soldado velho perde o reflexo. Já não tinha certeza: de onde teria partido a bala? Era minha, pois me encontrou. Pois então que eu fique com ela para sempre.
É noite em minha mente, mas o céu continua azul, com nuvens densas. Algum efeito especial? Estarei numa cidade cenográfica, onde tudo existe e se move, de acordo com a vontade do diretor? No Largo da Carioca quando é noite, os seus habitantes mudam, saem os homens e rapazes apressados, os executivos e secretárias bem arrumados, e entram os descolados, os malandros e marginais, os homens da noite, as mulheres da vida, os trabalhadores que preparam o dia seguinte. Quando é noite, acendem-se todas as luzes, os sons mudam, os olhares se modificam e o azul do céu de anil some. Se me fosse dado a escolher, não escolheria essa paisagem final, nada disso! Frontearia-me de mar, bastante água salgada por todos os lados qual o meu Rio de Janeiro! Comeria um prato delicioso, um saboroso ensopado de peixe, um bom vinho. “ – Como se harmoniza?” Pergunta o sujeito ao meu lado ( dentro da minha imaginação, e querendo dar palpite!) Solto a piada velha “com a carteira”! Ah! Ah! Um bom vinho tá é bom demais. Mas tenho que dormir, acabou-se. Foi uma jornada e tanto para um soldado todo errado. Amanhã não terei que chegar no horário, caso contrário teria de ouvir o Sr. Vasconcelos praguejar seus previsíveis e infelizes dilemas e verdades. Ou ainda, teria que empilhar mais corpos que os olhos do Sargento Batráquio possa mirar e meu batalhão matar. Não terei que esperar pelo meu algoz juvenil colocar o seu jovem rosto neste buraco, espreitando a minha morte. Magdalena dirá pela enésima vez que não pode, hoje não! Virão me buscar? O céu perdeu seu azul, há nuvens densas nele, os pássaros com certeza flertam uns com os outros, chegando a congelar a trajetória por instantes quando lhe interessam. Somente os colibris podem parar no ar, mas à noite? Serão colibris da noite? Será que é noite? A morte me espreita, mas não é um rosto que eu conheça. Tem barba, e sorri preocupado. É um Anjo, com certeza. Reconheço pelos olhos de preocupação. Minhas forças se acabam : “─ está morto”, ouço meu anjo dizer “ - Será?” questionam! “ – Ouçam, está assobiando, ouçam!” Ainda escuto outro anjo ordenar: “– Filma, filma tudo...”
FIM
A noite é sonolenta, modorrenta, mas terna. Aviso a Magdalena sobre isso. Fico mais tenso, mas não demonstro. Demonstro inquietação e arrependimento. Quisera ter ido a outro lugar, quisera que as coisas entre nós tivessem sido diferentes. Amar, amar a perder a vida, as vestes, os dias. Despi-la em imaginação e em verdade, nua e cozida. Come-la em belos nacos a noite toda! Estacionar dentro dela, a mais não poder. Ela é minha, somente minha! Mas hoje não houve este encontro. Hoje o tempo é pequenininho, minúsculo, eu diria. Estamos terminais! “─ Vamos, vamos, vamos!” tento manipular a sua vontade, escutando-a retroceder com a mesma regularidade da minha voz insistente: “aonde, aonde, aonde?” Aonde der, vamos aonde der, vamos nos dar! Hoje somaremos, e aconteça o que acontecer, hoje amaremos para sempre, ou nunca mais! Mas Magdalena me foge outra vez, o céu retorna, retorna a ardência no peito, e o medo de morrer para sempre. Perco Magdalena mais uma vez.
Retorno a época, em que eu servia na força. Sargento Batráquio me olha desdenhoso. Ele ri da minha falta de jeito e me pede calma. “- Calma cabo, cabo, caaaaabo...!” E isto lá é jeito de falar? Falta-lhe traquejo.
“ - Aonde coloco estes corpos, sargento?” Que pergunta capciosa, hem? Quebrei-lhe a espinha, o intelecto, a hierarquia... Ledo engano. “– Aonde você quiser, são inimigos políticos, se vira, se vira! Cabo, cabo, caaaaabo!” Que guerra é esta em que vivemos, a cada esquina um corpo. Como depois erigir monumentos a todos estes garotos? Vão lembrar-se de mim, aquele que catava os corpos de garotos depois dos tiroteios?
Sargento Batráquio tem este apelido, por que tem cara de sapo. Com o pouco treinamento que tem, torna-se ridículo quando quer dar ordens. Saltita para dar ordens, corre quando tem que andar, anda quando tem que correr: um verdadeiro sapo! Encontrei-o uma vez na cidade. Era sábado à noite, quando eu voltava de uma noitada. Apresentei-o a Magdalena, que era então apenas uma recente conquista. Estava bastante orgulhoso de mim mesmo. Cumprimentou-nos já se afastando, tímido, saltitante. Quando contei dos pormenores à Magdalena, ela riu a mais não poder. Lembrou que realmente ele falava saltitando, e atalhou “– tem mesmo cara de sapo!” Pois foi graças ao Sargento Batráquio que pedi a baixa, e saí da polícia. Obrigado Sargento! “ – Cabo, cabo caaaaabo!”
Seria o Sr. Vasconcelos ou o Sargento Batráquio: qual deles teria razão sobre mim? Por quais motivos eles fizeram tanto esforço para que eu os detestasse? Atrasado, ou incapaz? Extremamente capacitado, ou irônico? As luzes da cidade passavam rapidamente, enquanto nos dirigíamos ao motel. Magdalena se retorcia em pequenos pânicos, e em uma insegurança atroz: “ não sei se posso, você sabe que eu não posso” Habituei a estes “nãos” e aos horários truncados que ela tinha. Magdalena estava na faculdade. Alguns dias transcorriam tranqüilos, com direito a um bom e gostoso namoro. Em outros dias não tinha tempo nem para um “oi!”! Eu não a via nos dias de aulas integrais. Já estávamos na Barra, os motéis iluminavam alguns casais. Desisti próximo a entrada. Desviei o táxi e rumamos para a sua casa. Os anos haviam levado embora o nosso amor!“ Tchau, tchau, adeus! Faziam 40 anos que não a via e nem pensava nela. Pois agora a sua face, o seu cheiro e seus “nãos” voltavam com força total, somente por agora, por hoje.
A terra afundava na altura da omoplata, forçando a coluna, me tirando o ar. O Sr. Vasconcelos teria rido de tal situação. Espero que os anjos estejam vendo tudo isso! Sargento Batráquio diria “ se vira! Cabo, cabo caaabo! ” Magdalena diria que “hoje não, você sabe, hoje não” Ri. Estando no centro da cidade, em pleno Largo da Carioca, toda aquela imprecação não fazia sentido.
Estando nesta trincheira, além do céu, espreitava também avistar meu algoz, meu “Pixote” mal treinado. Colocasse ele a cara na reta, eu o identificaria. Olhando em volta, bem dentro dos inúmeros olhos que me olhavam, procurava por ele. Eles sempre voltam ao local do crime, dizem. Mas dele, não tive visão. Algo em mim pedia: deixe o estudante praticar um pouco na sua cara. Deixe, afinal, um ponto ele já marcou! Em outras ocasiões pensava: o maldito botando a cara, digo tchau pra ele, e eu é que atiro, cuspo, sei lá! Seria ele um demônio? Um jovem demônio, lembro da sua voz ecoando dentro da minha alma: “ ─ não reage não, tio!” E ao “tio”, que tentava tirar o atraso da hora, foi dado a oportunidade de reagir? Soldado velho perde o reflexo. Já não tinha certeza: de onde teria partido a bala? Era minha, pois me encontrou. Pois então que eu fique com ela para sempre.
É noite em minha mente, mas o céu continua azul, com nuvens densas. Algum efeito especial? Estarei numa cidade cenográfica, onde tudo existe e se move, de acordo com a vontade do diretor? No Largo da Carioca quando é noite, os seus habitantes mudam, saem os homens e rapazes apressados, os executivos e secretárias bem arrumados, e entram os descolados, os malandros e marginais, os homens da noite, as mulheres da vida, os trabalhadores que preparam o dia seguinte. Quando é noite, acendem-se todas as luzes, os sons mudam, os olhares se modificam e o azul do céu de anil some. Se me fosse dado a escolher, não escolheria essa paisagem final, nada disso! Frontearia-me de mar, bastante água salgada por todos os lados qual o meu Rio de Janeiro! Comeria um prato delicioso, um saboroso ensopado de peixe, um bom vinho. “ – Como se harmoniza?” Pergunta o sujeito ao meu lado ( dentro da minha imaginação, e querendo dar palpite!) Solto a piada velha “com a carteira”! Ah! Ah! Um bom vinho tá é bom demais. Mas tenho que dormir, acabou-se. Foi uma jornada e tanto para um soldado todo errado. Amanhã não terei que chegar no horário, caso contrário teria de ouvir o Sr. Vasconcelos praguejar seus previsíveis e infelizes dilemas e verdades. Ou ainda, teria que empilhar mais corpos que os olhos do Sargento Batráquio possa mirar e meu batalhão matar. Não terei que esperar pelo meu algoz juvenil colocar o seu jovem rosto neste buraco, espreitando a minha morte. Magdalena dirá pela enésima vez que não pode, hoje não! Virão me buscar? O céu perdeu seu azul, há nuvens densas nele, os pássaros com certeza flertam uns com os outros, chegando a congelar a trajetória por instantes quando lhe interessam. Somente os colibris podem parar no ar, mas à noite? Serão colibris da noite? Será que é noite? A morte me espreita, mas não é um rosto que eu conheça. Tem barba, e sorri preocupado. É um Anjo, com certeza. Reconheço pelos olhos de preocupação. Minhas forças se acabam : “─ está morto”, ouço meu anjo dizer “ - Será?” questionam! “ – Ouçam, está assobiando, ouçam!” Ainda escuto outro anjo ordenar: “– Filma, filma tudo...”
FIM