Hipnotizado com o espetáculo que as luzes proporcionavam, Gabriel sentiu-se maravilhado com o portento. Não era a primeira vez, nem seria a última, pensou, que o Pai determinaria alterações no cosmo, direcionando-o para o estabelecimento de suas proverbiais diretrizes. Tais alterações sempre provocavam muitas instabilidades, assim como verdadeiras revoluções nas galáxias. E que seja feita a sua vontade.
Quando da criação do Universo, as luzes, suas evoluções e suas fantásticas conformações, as colisões, junções e divisões dos corpúsculos, contiveram alterações e mudanças imensuravelmente maiores, mais duradouras; todo o universo bordejava às ordens do “Deus dos Exércitos”. Criação e montagem que até hoje perduram, e que pode ser visto e admirado nos longínquos confins do espaço, em um processo talvez infinito. Mas agora, as conformações e os clarões eram mais nítidos, enfáticos e muito, muito esperados. Desta soma de clarões, relâmpagos e cintilações, tudo se compactaria e resultaria em apenas uma chama, num rastro de um novo corpo celeste, um grande cometa, que percorreria a abóboda terrestre de um pólo a outro. E com este asteróide, além das mudanças gravitacionais e temporais que se formariam com o novo equilíbrio proposto, mais do que tudo, formaria nos céus um aviso, um sinal para o mundo, tal, que a partir de então a direção da história será totalmente transformada, e a humanidade, seus animais e territórios, profundamente modificados.....
Gabriel pressentiu que a partir daquele momento, seria designado pelo onipotente para mais uma missão. Sentia-se a fonte da anunciação das boas novas. Estava sendo decretada a transformação das relações entre os homens e Deus, das ordenações, dos direitos e haveres, do fortuito e também do acaso. Maktub... Percebia-se no Arcanjo um grande contentamento. Uma ligeira contração facial ocultava a imensa satisfação, suas grandes e alvas asas trepidavam em ligeiro tremor, como se discretamente aplaudissem a esperada concretização da vontade divina, seu prazer e zelo pelo que imposto lhe será, e o bom gosto com que fará! Para os homens, a realização da mais antiga e esperada profecia, para o corpo celeste, a glória da tríplice divindade. Previu esperar. Gabriel sabia o que fazer, mas, o “todo poderoso”, do alto da eternidade, preconizando junto às manifestações do coro angélico e das potestades, das virtudes e dos arcanjos, prevenira-o de que somente “ELE” poderia enviá-lo. Dentre os Arcanjos, era ele o escolhido para mais uma anunciação. Sentiu-se pleno.
Um rápido abrir e fechar de asas, foi a forma como assentiu ao criador o entendimento. Fora dado o sinal, e somente ele atendeu, conforme a sua vontade. Estava escrito: anuncia agora ao mundo Gabriel, aos quatro cantos, aos dirigentes e escravos, aos animais e plantas, aos povos e seus Reis: o filho do homem nasceu.
Ao dirigir-se ao descampado, lugar previsto pelo Onipotente para arregimentar homens, visando a primeira aclamação, divisou entre arbustos e pedras, vestígios de um pequeno animal. Entre as ruínas de uma humilde casa, avistou uma pequena pomba, filhote ainda, que meio escondida, e arredia, vistoriava aquele ser de alvas vestes, de extrema candura e sorriso iluminado. Deixou-se pegar, mansamente, e uma vez em seu colo, pareceu sossegar o coraçãozinho aflito. “ - E agora? perguntou-se Gabriel?
Gabriel acarinhava o pequeno animal, antevendo o quanto sofrera em tão tenra idade. Imaginou a solução do problema ao avistar uma pequena luz na choupana próxima de onde estava. Dirigiu-se para lá, e ao chegar bateu na porta. Dois pequenos e apagados olhos negros o olharam pelo viés da porta, questionando num tom de voz ríspido, quem era que batia àquela hora. “– O que queres ? Quem és tu?” – Me chamam Gabriel. Sou um viajante. Encontrei um animalzinho vagando próximo daqui. Poderás se ocupar dele, meu bom homem?
“ ─ Gabriel, Gabriel. Volta e meia te intrometes, e confunde tanto a obrigação com a devoção, que chegas a dar palpites, onde nunca houvera de ser chamado! Gabriel, dê-me este pequeno animal e suma-se! Hoje não é um bom dia!”
Não havia bons augúrios em suas palavras, e sua voz era desprovida de calor humano. Falava como se conhecesse a ele, e com uma intimidade fora de ocasião. Gabriel perpetrou uma atitude de repúdio, mas quedou-se desanimado. Qualquer atitude mais contundente resultaria em um desastre para o animalzinho, quiçá para a sua missão. Ergueu suas sobrancelhas e, como quem questiona o inquestionável, lhe disse: “ – Vade retro! Estás fora de lugar! O momento é do Altíssimo, o instante é de seu unigênito, o lugar é sagrado! “ – Então meu bom Arcanjo, disse-lhe a voz - não bata mais à minha porta. Livre-se você mesmo deste animalzinho. “ – Para você, o coro celeste te bastará!”, replicou o Arcanjo, retirando-se do lugar. Pareceu-lhe que o pequeno animal agradecia não ter sido entregue àquele homem estranho. Gabriel tentou interpretar algum novo sinal enviado do Pai, mas já lhe fora passada sua missão. E agora? Levaria a pequena pomba? Melhor esquecer o homem e sua choupana. Sabia demais para um simples homem, e de menos pelo que o momento exigia.
As luzes do acampamento dos pastores formavam uma estranha, porém bela, junção de pontos, ora amarelos, ora vermelhos, como luzes de uma festa. E era uma festa o que estava por vir, e era necessário apressar aqueles convidados.
Passado o período decretado sobre este povo e sobre a Cidade Santa a fim de que as prevaricações se consumassem, o pecado tivesse o seu fim, a iniqüidade se apagasse, a justiça eterna fosse trazida, as visões e profecias se cumprissem, era chegada a hora de ungir o Santo dos Santos.
“ - Eu sou Gabriel, o que está na presença de Deus!” anunciei à minha chegada, o que fez com que todos os pastores, apavorados e aflitos, caíssem por terra. “ – Não temais, pois eis que vos anuncio uma boa nova, que será de grande alegria para todo o povo: nasceu-vos hoje, na cidade de Davi, um Salvador, que é o Cristo, o Senhor! Eis o sinal: encontrareis o menino envolto em panos e deitado numa manjedoura. Ide pois saldar o “filho de Deus”. A uma simples menção do Cristo, corações modificados, os espíritos aflitos acalmados, guerras rejeitadas, enjeitadas ou abortadas, dúvidas dissipadas. O tempo das várias ocupações com este mundo, esquecido. Emoldurado pela multidão da milícia celeste, os assustados olhos destes humildes homens umedeciam, e em uníssono louvavam a Deus dizendo: “ Glória a Deus no mais alto dos céus, e paz na terra aos homens de boa vontade”. Sentia-se recompensado. E finalizando a missão que lhe fora dada, trataria também de recompensar a Simeão, Ana, e tantos outros que não somente creram como ansiosamente aguardavam o nascimento do unigênito. Os desígnios eram inúmeros, tantos quanto imensos, e o criador por certo o utilizaria novamente. E a pomba? E aquele homem estranho? Quando deu por si, estava de volta a choupana, batendo, à porta.
“- Não acredito que voltastes, Gabriel. O que queres de mim? Rugiu o sinistro homem! Preveniram-me para que não me aproximasse, pois mantive a distância! Ameaçaram-me para que não desse as caras, pois então, estou aqui recluso! Preconizaram minha completa perdição no por vir e nos séculos dos séculos, pois então, caí! O que querem mais de mim? O quão distante querem que o príncipe, o escolhido de Deus se mantenha? Sou o único que não foi convidado, mas sou o único a poder dizer ao Cristo por que está aqui, a lhe dar os motivos para a sua vinda. E somente com os meus conselhos e oposição ele poderá se tornar o herdeiro, caso contrário, seria mais um filho, profeta qualquer neste mundo. Veio para destruir as minhas obras, mas, por mais abjeto que pareça a minha presença, por mais absurdo ou indiferente que pareça a todos, sou EU, mais ninguém, que ele precisará derrotar. Sou EU que farei a diferença, a MIM ele deverá negar, pois sou o herdeiro caído, sou o príncipe das potestades e das hostes espirituais da maldade. Qual importante trono seria almejado por apenas um Rei? E como reinaria um povo trêfego, ingrato, incoerente e sem fé, se não houvesse uma grande sombra a assustá-lo? Sou EU o ADVERSÁRIO, fui criado perfeito e bom, pois fui designado ministro junto ao trono de Deus. Sou o rebelado, mas também o esperava, sou o anjo negro mas também sirvo como vocês a este Deus, o sirvo pela contrariedade, o sirvo pela descrença e pela negação, mas também estou aqui esperando o Cristo para saldá-lo, à distância permitida e em paciente espera. Por isso, me deixe em paz Gabriel, arcanjo de Deus. E esta pomba? Não é minha. É nova e chata, pois parece que vigia meu passos. Gabriel, leve-a contigo, cuide de seu espírito e de sua boa vontade. Cuide de Deus, pois é ele quem carregas nas tuas mãos. O símbolo da amizade, o espírito de nosso Deus, a majestade oculta em um pequeno ser. Não se dignaram a lhe contar? Nenhum anjo tonto lhe disse? Essa pomba é o fim e o começo, é o tudo, e é ele brincando de nada, cuidando do seu Cristo, cuidando que sua missão seja feita conforme a sua vontade.”
Gabriel escutou calado, e cuidou de sair dali de fininho, levando junto aquele pequeno animal. Seria realmente quem ele pensava ser, aquele homem estranho na choupana? Seria a pomba a representação do seu Senhor? Que ironia. Logo ele, um arcanjo do Onipotente, arregimentando dúvidas, sendo vasilhame para os queixumes de um anjo caído. Mas é assim que este funesto ser rejuvenesce, se alimenta e cria vida. Plantando dúvidas, criando divisões, invadindo os espaços e os conhecimentos que não são seus, enaltecendo as diferenças, engrandecendo a si mesmo em detrimento ao bem maior. Gabriel calou-se, deixando o local rápido, pois ainda havia muito o que fazer e, ele enfim, conseguia entender o novo sinal. Aquela pomba que ele carregava em seus braços é quem fará a próxima anunciação, voando por sobre a cabeça do ungido, e anunciando a João Batista e ao mundo, o seu Cristo, o seu Rei. E não há no que prepará-la para esta missão, pois será o próprio Todo Poderoso que se encarregará desta anunciação; está escrito...
FIM