Pobre, extremamente pobre. E também estava suja e, tão mal vestida, que sua indumentária mais parecia uma armadura de batalha. Observá-la não fazia muito sentido, mas ele continuou. Flertava com seus movimentos, ora leves, ora truncados, que reviravam o lixo numa sofreguidão esperançosa. Então era isso! Sua desenvoltura era o que lhe cativava. Aguardou outras surpresas. Previu novidades. A pele suja e as mãos sabidamente mal tratadas, logo atrairiam novamente o seu olhar curioso: achou entre as pilhas de papéis amarrotados e sujos, um livro.E o abriu. Por entre as pilhas de detritos , achou um livro. Quisera ter poderes de super homem para, apenas com um olhar àquela distância, saber de qual livro se tratava, qual título, qual autor. A magia das letras, que postas em razoável ordem de idéias, formatavam uma literatura, e este livro voltava a cumprir o seu papel principal. O quão improvável seria para um escritor pensar que sua criação, a qual se dedicou por meses, quiçá anos, o livro que escrevera com tanta dedicação e presteza, se destinaria a lixeira, e que neste local seria lido por uma humilde catadora! Mas ali estava ele, sendo calmamente folheado, delicadamente amparado naquelas mãos calejadas.
Àquela distância, mal conseguia divisar o formato do rosto, mas seu sentimento interior lhe dizia que os olhos daquela pobre criatura brilhavam com a descoberta. Mudara de posição, ela também. Da posição curvada com que alteava o lixo, passara agora a um natural arqueamento das pernas, como que buscando uma maior aproximação com o conteúdo daquelas páginas.
Passara por ali para ver o terreno . Era um interesse inicial, talvez desse em algum empreendimento imobiliário, talvez...O lixão teria que sumir dali. Alguns barracos derrubados, reflorestamentos nas encostas, uma maquiagem aqui e ali, e pronto, subiriam mais um “ Bosque das Palmeiras”. Não esperava se demorar mais que dez minutos, quando dera por conta de estar já a meia hora observando aquela mulher. A sua posição agora era ainda mais confortável, sentada em uma lata, enquanto ele estava de pé. Qual o autor, qual? Pensou diversas vezes em ir até lá e perguntar, mas como atravessar aquelas sujeirada, sem se emporcalhar? Ela agora não apenas lia o livro, como o folheava a frente e atrás, como se pesquisasse no glossário, voltasse para a introdução, relesse em suas orelhas a evolução e a carreira do seu autor. Sem dúvida agora os seus olhos brilhavam. Ninguém consegue ler um livro por mais de uma hora, sem que vibre, se deslumbre, ou se entristeça. Mas naquela tarde, todos os movimentos e gestos irradiados por aquela mulher, lembravam estas porções de sentimentos e desejos, que afloram em leitores atentos e dominados com a sua leitura. Batia os pés, sapateava, meneava a cabeça com um “agora sim” ou um “agora não”. Fechava o livro e o abraçava tal amante desejado, e secava os olhos seguidamente, como quando se secam as lágrimas que rolam no rosto. Ficou ali admirando a ousadia empregada, que mesmo em um ambiente lixoso como aquele, permitia a jovem desfrutar de poesias amorosa, ou das aventuras ficcionistas de um homem ou mulher qualquer, ou dos desejos carnais externados por um ousado autor, das fábulas, crendices, tristezas, invenções e fantasias, de quem quer seja lá que os criou.
Aquela visão o tirara do desconforto de ser aquele, apenas mais um dia. Tivera despertada sua emoção e, vislumbrando o horizonte, observara que o fim do dia fazia um paralelo entre uma coerente paz com seu interior. Quando deu por si, ela havia sumido. Ou antes, ainda transitava junto aos seus, mas já ia longe, continuando a sua busca entre os montes, a procura de sua felicidade, do seu tesouro ou alimento. Procurou adivinhar aonde ela guardara o livro, que momentos antes estava em suas mãos. Não o via, talvez o tivesse guardado na bolsa, ou até o tenha devolvido ao lixão. Por alguns momentos, aquelas páginas estiveram a salvo do seu fim, tiveram o seu princípio e dever cumprido, e a finalidade para o qual foram criadas, atingida. Parabéns ao autor. Meus parabéns também ao livro, até por não ter ficado empoeirado e obsoleto em alguma prateleira de casa ou de um sebo. Sinal de que tinha uma mensagem contemporânea. Voou mais longe e atingiu maiores objetivos do que aquele imaginado por seu autor. Com os olhos da pobre catadora de lixo, alçou maiores passos e melhores dias.
Embora satisfeita a sua curiosidade, pressentiu que também ele, necessitava revolver alguns entulhos. Entrou no carro e foi embora, talvez para ler algum livro esquecido e empoeirado na sua estante. Algum livro que lhe motivasse vida.