Apertou o passo após verificar as horas. Estava atrasado. Por mais que lhe trouxesse alegria, aquele encontro não tivera a aprovação de ninguém; esposa, filho, mãe, todos unânimes: “ – Não vá!” Falar é fácil, não poderia dizer um não àquele convite.
Respirou aliviado quando viu o Largo da Carioca. Bastariam mais alguns passos e logo chegaria. Como seria encontrá-lo? Quais perguntas lhe faria? Marcara o encontro precisamente no centro do grande calçadão para ser visto, não criando dificuldades para ser encontrado. Ficou ali esperando, e o que seria um pequeno atraso, revertia-se numa espera aflitiva. Olhava para todos os lados, ansioso, imaginando vê-lo vindo. Cumprimentou por vezes desconhecidos que se aproximavam, na ilusão de que devia ser “ele” que se aproximava. Após o terceiro cumprimento inócuo e enganado, parou de olhar nos olhos dos outros. “Ele” que o visse, afinal o avisara da roupa que usaria, do seu cabelo, pele, etc. Somente agora caía em si: não perguntara nada sobre “ele”! Mal sabia o primeiro nome, cor do cabelo, roupa, pele, nada. Nada perguntara nada sabia.
Aguardou pacientemente durante 2 horas ali no centro do calçadão, em pé, a vista de todos. Vários eram os passantes, somente “ele” não vinha. Nunca o vira, nunca ligara. Amargara toda uma vida sem pai, pensando exatamente em como ele era, e agora que conseguira marcar um encontro, lembra de que nada perguntara. “Ele” tinha então esta vantagem, caso mudasse de idéia num último momento. Percebeu o atraso já adiantado, que o celular continuava mudo, que o dia estava indo embora. No céu, uma pesada nuvem começava a encobri-lo, e minguava o resto de luz do dia. Brotou nele então uma amarga lucidez, como nunca antes houvera sentido. “Ele” nunca que viria. Nunca o procurara, tirando esse primeiro e único telefonema, nunca telefonara, não seria agora que apareceria. Fora inocente e surdo, burro até. Balbuciou a palavra “pai” umas dez vezes, enquanto corriam dos seus olhos fios de lágrimas.
Alguns poucos passantes repararam naquela figura meio curvada, entristecida, ali há horas, de olhar perdido, travado. Suas feições terminaram por trincar; nem o choro, nem a dor afloraram mais em seu rosto, e a espectativa de um encontro, discretamente ia embora por completo. Sua vontade de recuperar uma pequena parte de sua história fugira-lhe por entre os dedos...
Tão perto, tão ao alcance do sonho estava, que não se dera a crer na possibilidade de estar enganado. Tão perto, tão longe. Sentira na voz de seu pai uma cativante ternura, que o fizera acreditar que o encontro se daria. Por isso estava ali, por isso esperou, por isso chorava. Um desencontro? Achou que não. Ele não virá, e ponto final!
Devagar, lentamente, percorreu o caminho de volta para o ponto de ônibus na Praça Tiradentes. Contornou uma pequena aglomeração que havia algum tempo se formara na Rua da Carioca, e seguiu alheio a tudo e a todos o seu caminho. Constrangido, jurou nunca mais sonhar com “ele”. Tarde demais, pensou, não preciso disso. Estava já maduro, casado, com filhos. Dele, nada precisava. Poderia viver plenamente sem “ele”, aliás, era aquela a sua realidade, pois então a viveria.
O ônibus trafegava tão devagar quanto tinham sido seus passos, em um interminável engarrafamento típico de final do dia. Agravava a lentidão do trânsito um atropelamento fatal de um idoso, ocorrido ali pertinho de onde ele estava, na Rua da Carioca.
“ – Atravessou correndo na minha frente, nem deu para frear! Vê isso! e agora meu Deus” prosseguia o motorista do ônibus como que se desculpando para a pequena multidão aglomerada. Um jovem médico ainda tentara o ressuscitamento, mas desconsolado, suspirava desolado. “ – O que ele disse? Ele não disse algo antes de morrer?” perguntou um curioso. Secando com as costas da mão, o suor que corria farto em seu rosto, o rapaz respondeu: “ - Estranho...ele disse que depois de 30 anos preso ganhava a liberdade da alma, mas perdia para sempre o seu filho amado.”
FIM