domingo, 24 de abril de 2011

Cartas III

                                                Foto Amilson Ferrari - Parque da Pedra Branca 


        Desliguei o telefone e o computador. Do telefone não saíam palavras inteligíveis. Ele, o telefone, não falava comigo, ou intrigante, apenas não me contava o que não sabia.  No computador, parecia que todos teclavam ao mesmo tempo, não tinha como me expor, muito menos me fazer entender. Assim como fazemos com as pessoas, se não há o que dizer, ou não se quer dizer; se ninguém responde ao que se pergunta: vire-se vá embora; ou desligue os aparelhos...

        Isso! Escreverei então uma bela carta. Meiga, expondo os motivos, explorando o que temos, o que sonhamos...Essa você lerá, com certeza. Quase todas as pessoas que conheço me aconselhariam utilizar um computador, uma impresssora, e-mails, " - Celular é melhor. Escrever?, trabalhão!"
        Me armei de tudo, qual uma aranha preparando sua teia, e lhe escrevi. Já que pessoalmente não conseguimos nos falar, nem nos comunicar pelo telefone ou computador, escrevo.
        Os e-mails, gmails, MSN's, são rápidos, Yahoooooo! Mais rápidas são por vezes as respostas monossilábicas, e suas silenciosas consequências, gerando estrondosas intrigas, incluindo-se aí generosos intervalos." É...fui...vou...quê?..." Ora andando entre o banheiro e a TV, ora passando-se apressado entre o lavabo e a cozinha, responde-se as perguntas como quem não gosta delas, pergunta-se com respostas, responde-se com perguntas, ao mesmo tempo marca-se e desmarca-se os encontros, ignora-se o presente. O passado, vemos no Youtube. Lá tem os nossos flash backs; flutuamos em nossas lembranças, ou as odiamos.  Mas não somos profissionais do vídeo: "- Corta! De novo, por gentileza! " O que fizemos, gravado está! Talvez pelo tempo juntos, as ignorâncias, as queixas, as testemunhas e os testemunhais,  as desconsiderações e as mentiras pululam em nossos discursos. Passa tudo tão rapidamente entre a tela e os olhos, que perdeu-se o que eu disse. "-Eu disse isto? ", em qual blog? O que mesmo eu queria dizer não faz nem meia hora? Pera aí, o que é que estou dizendo?
        Uma carta! Lentamente pensada, uma escrita trabalhada e norteada; não teclada a esmo, em servidores a kilômetros de distância das nossas atitudes, das nossas demandas,  atrás de um emaranhado de linhas de comunicação e satélites, ecoando em várias telas e HD's estranhos a nós, desrespeitando as nossas distâncias e implicâncias, suas estranhas e intragáveis atitudes, meus terríveis e desagradáveis humores. Você os vê,  mas voce não os lê! Ou seria o contrário? Agredimos, mas não sangramos.Vemos mas não sentimos. Enguiçamos mutuamente em um silêncio provocador. Envio então a carta, por um portador amigo, de ambos, não quero feridos. Quero ver se não chega! São as minhas considerações, minhas desculpas, alguns motivos. Chegará, lenta, mais lenta que conexão discada.
       
        Escrevi e enviei; e como resposta ao seu demorado silêncio,  brilha em minha tela a sua resposta. Eu sabia que era assim que ela viria, embora tenha acentuado na missiva: " leia direito, pare! pense antes de responder, não responda nunca, nunca meu amor,  pelo computador"; de nada adianta. Sinto-me um velho idiota e assoreado. A resposta resplandece em letras maiúsculas na tela do meu Big-Tec-Net: "- me esquece!" Tá bom, te esqueço e desligo. Não o computador ou o telefone, desligo de você e dessa história. Infelizmente nos veremos,  no Youtube, na rede, e para todo o sempre, na memória.
       

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