Pediu a bola insistentemente. Deu carrinho, trombou, sambou quando fez o gol, e se desesperou quando tomaram um. Alegrias e tristezas do futebol, mas por hoje, não teria adversário que lhe fizesse páreo. Insatisfeito, calou-se quando fez falta dentro da área. Mas se irritou, e desandou a reclamar, com o pênalti não marcado ao seu favor.
Sem saber como e nem por que, lembrou-se da faculdade medíocre, 2 anos em Administração de Empresas que nunca terminara. Serviram para que? Nem antes, nem depois. E a ex esposa, serviria agora? Ex esposas não são para toda a vida? Ex, ex vampiras, ex minhas, ex dos outros, ex amantes, ex amigos, são tudo o que você carrega, sua história de vida. Mas não me facilita agora, nem permite que você saia por aí contando tudo a todos. Ninguém se interessaria. E de repente a sua vida nada mais significa! O que fez, o que deixou de fazer, puff, somem! Tomou a bola do zagueiro, e partiu confiante, rumo ao gol desprotegido....
O médico afirmara categórico: seis meses, assim mesmo, " - caso o senhor obedeça as minhas determinações". Determinações? "- Quais?" “– Ah! O senhor sabe....não beber, não fumar, parar de jogar bola ou qualquer outro esporte, sexo muito...
muito pouco, entende? Dieta rigorosa. Sal? Nem pensar. Se o senhor mantiver uma vida regrada, talvez até ultrapasse esses prazos. Modificando as suas atitudes, seu modo de viver, tudo pode mudar, e permitir que o senhor chegue a 3º idade! ”
muito pouco, entende? Dieta rigorosa. Sal? Nem pensar. Se o senhor mantiver uma vida regrada, talvez até ultrapasse esses prazos. Modificando as suas atitudes, seu modo de viver, tudo pode mudar, e permitir que o senhor chegue a 3º idade! ”
Avaliou que poucos, muito poucos, chorariam a sua morte. Haviam as carpideiras, de sua cidade natal. Mandaria chamá-las! Viriam? Carpideiras... aqui não tinha disso. Faltavam seus elementos nesta terra, as raízes, pessoas, grupos de gente. No lugar em que fora criado, abundavam estas coisas: vizinhos, amigos, compadres a dar com o pau; gente preocupada com a gente; mas desconfiou, assim que desembarcou do ônibus na cidade grande, que não poderia contar com isto. Aqui, teria que se acostumar. Fez e ainda faz falta, sente-se as ausências: da mãe idosa que ficara naquele fim de mundo; do pai igualmente idoso mas cabeça dura qual semente de sucupira, dos tios, conselheiros sempre presentes. Em anos de trabalho e suor, não observara as tantas ausências em seu entorno. Tudo agora lhe fazia falta, tudo em volta ficara embassado e confuso.
Conhecer e trabalhar com alimentos, o ajudara a superar estas ausências. Mas o consumo das buchadas, assados, queijos, carnes de sol, entre outros, o cumulara de problemas de saúde. Ganhou assim a sua vida, trabalhando de sol a sol, juntando uma pequena fortuna. Somente agora o avisam de que era um sedentário, e aquele futebolzinho de fim de semana, um assassino! "- Isso mata!" alardeou seu médico. Os pensamentos eram distantes, mas a presença no jogo, dinâmica. Soltou dois palavrões: após um cruzamento perfeito, o atacante azarado chutou para fora! “- Vá pra.....”
Continuou correndo como um menino. Salvou um gol em cima da linha, e todos comemoraram o feito. “ - Nesta idade, ainda tem fôlego para socorrer a defesa?”
Sentia o coração acelerado. Prenuncio e indicativo do perigo cardíaco ao qual concorria? As peladas eram religiosamente seguidas das cervejas, churrasquinho, tira gostos, e neste ritmo seguia. Manteria esta rotina ou a evitaria, conforme ordens médicas? Havia uma ausência de preocupações e cuidados com estas ordens, e um transbordo de sentimentos, tanto caríssimos, quanto antigos; lembranças boas e más, algumas confusas; isso continuaria o dia todo?. E as tias? Poderia chamá-las também, quem sabe viriam? Seus irmãos com certeza estariam ao seu lado, no leito, mas não por pena, nem por esmero: tentariam angariar algumas posses na herança, ao mesmo tempo em que tentariam não demonstrar ser esta a estratégia. Melhor com eles que sem eles, afinal, todos eram seus funcionários. De alguma forma, o ajudaram a moldar o patrimônio. E o filhos? Ausentes, tanto quanto ele tinha sido como pai. Saíram aos seus. Agora é tarde.
Chegara mocinho ainda na cidade grande. Com 25 anos já tinha seu carro, sua casa financiada, e sua esposa lhe esperando chegar. Mas não tinha hora. Chegava quando podia, e lá, permanecia muito pouco. O trabalho era de sol a sol, de manhã à noite. Perdera alguns nascimentos, momentos de paz, e momentos de angústia. Em todos estava trabalhando. Pagava religiosamente todas as contas, mais do que isso, não podia fazer. Nem quando desconfiou da mulher, de sua fidelidade, não parou. Ameaçou-a, tomou um banho, uma nova muda de roupa, e saiu porta afora para trabalhar.
Se a esposa via-lhe pouco, a mesma sorte tinha sua amante. Igualmente bancada, igualmente grávida, e igualmente solitária nos momentos mais delicados e importantes de sua vida. Esta, pelo menos, berrava mais. Ameaçava-lhe com o abandono, com greve, e até com certa violência; fazia-lhe escândalos: “ – que eu não sou mulher de qualquer sujeito não, viro a mesa e a cadeira em cima dos teus cornos, seu fiiilho da....
Saber que se pode morrer em até 6 meses, estressa qualquer um. A princípio, se tem vontade de obedecer, cumprir as determinações médicas, aquietar-se. Qual! Fazer o que? Faço esta orquestração toda, e paff! Caio em 4 meses, sem proveito, sem ter vivido o resto que me cabe, sem ter resolvido todas as questões, eu hem? Vou mais é para a esbórnia. Palavrinha bonita, que junta o exemplo da idéia à ação.
“- Que é que este filho de uma boa puta está fazendo? Cruza logo, ôôô cagão!”, gritou, agitando os braços, pedindo a bola, querendo jogo. E toma gol, e toma aplauso. Primeiro tempo. Descansar, descansar para que? “_ O que é isso Sérgio, se aquieta homem! Tá correndo demais. Sê não é mais garoto não! “ Garoto?
“- Que é que este filho de uma boa puta está fazendo? Cruza logo, ôôô cagão!”, gritou, agitando os braços, pedindo a bola, querendo jogo. E toma gol, e toma aplauso. Primeiro tempo. Descansar, descansar para que? “_ O que é isso Sérgio, se aquieta homem! Tá correndo demais. Sê não é mais garoto não! “ Garoto?
Eu era um bom garoto, destes educados, apiedado dos seres humanos miseráveis das esquinas, acreditando em tudo e em todos. Quando vim para a cidade grande, aí é que o mundo se apresentou a mim. Ou melhor, descobri que o mundo que eu conhecia não existia. Fiquei atarantado com tanta coisa nova e errada. Era tudo ou nada para aquele garoto, e ele abraçou o tudo! Se fez um homem. Se é para isso que serve um homem, eu servi. Servi a família toda. Dependem de mim para tudo, e eu? Dependo agora de um coração doente. “ – Vai, vai....” pediu a bola, com um chamado arrítmico, de quem da bola não apanha, deu um bonito chapéu, matou no peito a bola que lhe fugia ao controle, e conforme desceu a meia altura, de voleio, mandou-a no ângulo esquerdo do pobre goleiro. Deu um grito, de dor, de fôlego acabado, de coração partido, de peito arriado. Deu um grito só, e como era um sujeito aguerrido, não pediu socorro, nem transpareceu acabado. Ainda zonzo e deitado no chão, enquanto cercado pelos outros jogadores tentava levantar, divisou no canto direito do campo um séquito de estranhas mulheres, todas vestidas de negro. Tinham véus a cobrir seus rostos, e caminhavam em passos cadenciados. Dirigiam-se para aonde estava deitado. Sorriu de satisfação. Elas vieram, as suas carpideiras! Haveria então quem o velasse e chorasse. Foi sentindo as forças minguarem, enquanto em seus ouvidos, o canto das mulheres chegava em tom suave e brando, misturados aos elogios, gritos e festejos dos companheiros do futebol. Sentiu-se mortiço. Ouvia em uníssono:
“ – Nossa Senhora socorrei, amparai e recebei, a quem seu filho recomendar. Filho do Deus altíssimo, o qual amamos e glorificamos, na vida e na morte. Dai-nos a justa herança pelas boas ações que fizemos, misericórdia pelos pecados que cometemos, para que no dia em que escolhestes, teus anjos venham levar, te levar, te levar; pobre coitado, que já cumpriu com seu destino, permita meu bom Deus, que aqui fiquemos a chorar, chorar, chorar ...”
Ainda olhou para os velhos companheiros, e mesmo com uma agonia que lhe afrontava o peito e um grito de dor travado na garganta, balbuciou suas últimas palavras:
“ – Ganhamos de quanto?”
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