segunda-feira, 5 de março de 2012

Breve diálogo entre um crente e um anjo diligente

       

       - E aí, rapaz? O que tens feito, ô sujeito? Você aí mesmo, vestido de terno, pulseira de ouro, relógio moderno, carteira recheada, sorriso eterno.

        - Ah! Eu? Tenho lutado em lutas desiguais. Vencido e perdido batalhas, sofrido agruras, achado tempo onde o tempo dizia não caber, e preenchido com trabalho árduo os segundos vazios entre a obrigação e o prazer! Enfrentado feras travestidas de homens, mas sempre pautado pelo dever e o devido, polido e educado, de bom gosto e bom tino. 

        - Ah! Que bom, bonito mesmo! Mas vem comigo. E já venha pelado, descascado e solto. Deixa o dinheiro, o carro, a casa e nu o dorso, as costas preparadas, pois o que plantastes em vida, vais agora colher em dobro!

        - Mas pera lá! Que isso? Quem é você, e de onde vens? Por que mereço isto, e por que falas assim, empertigado e altivo, determinando meu currículo, me tratando com desdém?

        - Tenho estado ao teu lado e caminhado contigo. Fui destacado a ser teu braço, fornecendo amparo e juízo. Condenado tua má conduta, sendo ignorado em meus apelos. Avisei em sonhos das injustiças que cometias, alardeei aos berros teus erros. Tracei os caminhos perfeitos que farias, mas não seguiste nenhuma boa doutrina, mesmo em meus loquazes apelos.Quem sabe agora, debaixo de uma boa cilha, não abre a alma e vomita, seus supérfluos anseios?

        - Vivi no luxo? Má conduta, injustiças? Acaso sou acusado de forjar minha desdita? Ou fui eleito o verdugo das castas inferiores? Sabes o quão duro foi minha vida. Se estavas ao meu lado, vistes tudo que passei e sofri. Onde estavas quando eu perdia pai e mãe ainda meninote? E quando implorava por um pedaço de pão, leite um pouco, onde estavas, nobre ancião rancoroso?  E após dias em um trabalho árduo, ainda tinha que pedir o que me deviam, um pequeno salário atarracado! Fostes meu braço? Meus braços são estes aqui, que levantaram pesos sem medida, agrediram e me defenderam nas lidas. Que caminhos perfeitos são estes de que falas, que prometestes sei lá a quem? Pois a mim foram dadas escaladas, morros íngremes e ariscos. E das doutrinas que li e ouvi, pensando bem, a melhor aplicada foi a que eu próprio escrevi. Toma aqui meu lombo, me toma como exemplo, se é que assim se fará justiça. Mas imploro aqui e agora misericórdia divina, pois tudo o que eu fiz em vida, foi somente o que dela aprendi!

        - Não retiro uma vírgula do que eu disse, pois alguns de seus pares viveram piores condições que as tuas, mas se não foram consagrados santos, ao menos aguçaram os tinos, transbordaram valores em seus lares, abandonaram os danos e os vícios. Apelas ao senhor? Pois ele com certeza te ouvirá. Está retirado o teu castigo e os maus tratos. A pena tratada fica tolhida. Mas terás que vir comigo. O momento é de jazer, e finda o prazo desta lida. A hora de partir é esta, e nesta hora nem ele apita, nem o prazo se estica, nem a sábia misericórdia divina concede, mais tempo em sua vida.



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