domingo, 14 de julho de 2013

Futebol





        Pediu a bola insistentemente. Deu carrinho, trombou, sambou quando fez o gol, e se desesperou quando tomaram um. Eram as alegrias e tristezas do futebol, mas hoje não teria adversário que lhe fizesse páreo. Insatisfeito, calou-se quando fez falta dentro da área. Mas se irritou, e desandou a reclamar com o pênalti não marcado ao seu favor.
        
        Sem saber como e nem por que, lembrou-se da faculdade medíocre, 2 anos em Administração de Empresas, que nunca terminara. Serviram para que? Nem antes, nem depois. E a ex-esposa, serviria agora? Ex esposas não são para toda a vida? Ex, ex vampiras, ex-mulatas, ex-amantes, são tudo o que você carrega, sua história de vida, mas não permitem que você saia por aí contando, enumerando. E de repente, a sua vida nada mais significa! O que fez, o que deixou de fazer, puff, somem! Tomou a bola do zagueiro, e partiu confiante, rumo ao gol desprotegido....

        O médico afirmara categórico: seis meses, assim mesmo, caso o senhor obedeça as minhas determinações. Determinações? Quais? “ – Ah! O senhor sabe....não beber, não fumar, parar de jogar bola ou qualquer outro esporte brusco... caminhar bastante...
         − E sexo? 
        −Sexo? muito... muito pouco, entende?  Dieta rigorosa. Sal? Nem pensar. Se o senhor mantiver uma vida regrada, talvez até ultrapasse esses prazos. Modificando as suas atitudes, seu modo de viver, tudo pode mudar, e permitir que o senhor chegue a 3º idade! Talvez seja possível revertermos este quadro ...”

        Avaliou que poucos, muito poucos, chorariam a sua morte. Então quem choraria em seu velório? Haviam  as carpideiras em sua cidade natal. Mandaria chamá-las! Viriam? Carpideiras... aqui não tinha disso. Faltavam seus elementos nesta terra, as raízes,  pessoas, grupos de gente. No lugar em que fora criado, abundavam estas coisas: vizinhos, amigos, compadres a dar com o pau; gente preocupada com a gente; mas desconfiou, assim que desembarcou do ônibus na cidade grande, que não poderia contar com isto. Aqui, teria que se acostumar com estas amizades passageiras, este abuso de limites e empregos, tudo rápido, rápido e ausente.

        Algumas coisas fazem falta na gente, sente-se as ausências: a mãe idosa que ficara na naquele fim de mundo; o pai igualmente idoso mas cabeça dura qual semente de sucupira, os tios, conselheiros sempre presentes. Em anos de trabalho e suor, não observara as tantas ausências em seu entorno. Mas tudo agora lhe fazia falta, tudo em volta lhe era estranho e confuso.

       Conhecer e trabalhar com alimentos, o ajudara a superar estas ausências. Mas o consumo das buchadas, assados, queijos, carnes de sol, entre outros, o cumulara de problemas de saúde. Ganhou assim a sua vida, juntando uma pequena fortuna. Soltou dois palavrões após um cruzamento perfeito. O atacante azarado chutou para fora! “- Vá pra.....”

        Continuou correndo como um menino. Salvou um gol em cima da linha, e todos comemoraram o feito. “  − Nesta idade, ainda tem fôlego para socorrer a defesa? ”

       Sentia o coração acelerado. Prenuncio e indicativo do perigo cardíaco ao qual concorria? As peladas eram religiosamente seguidas das cervejas, churrasquinho, tira gostos, e neste ritmo seguia. Manteria esta rotina ou a evitaria, conforme ordens médicas? Havia uma ausência de preocupações e cuidados com estas ordens, e um transbordo de sentimentos, tanto caríssimos, quanto antigos; lembranças boas e más, algumas confusas; isso continuaria o dia todo? E as tias? Poderia chamá-las também, quem sabe viriam? Seus irmãos com certeza estariam ao seu lado, no leito, mas não por pena, nem por esmero. Com certeza tentariam angariar algumas partes na herança, ao mesmo tempo em que tentariam não demonstrar ser esta a estratégia. Melhor com eles que sem eles, afinal, todos eram seus funcionários. De toda forma, o ajudaram a moldar o patrimônio. E o filhos? Ausentes, tanto quanto ele tinha sido como pai. Saíram aos seus. Agora é tarde.

        Chegara mocinho ainda na cidade grande. Mas entrou na briga feito gente grande, e para ganhar. Com 25 anos já tinha seu carro, sua casa financiada, e sua esposa lhe esperando chegar. Mas para chegar não tinha hora. Chegava quando podia, e lá, permanecia muito pouco. O trabalho era  de sol a sol, de manhã à noite. Perdera alguns nascimentos, momentos de paz, e momentos de angústia. Em todos estava trabalhando. Pagava religiosamente todas as contas, mais não podia fazer. Nem quando desconfiou da mulher, não parou. Ameaçou-a, tomou um banho, uma nova muda de roupa, e saiu porta afora.
        Se a esposa via-lhe pouco, a mesma sorte tinha sua amante. Igualmente bancada, igualmente grávida, e igualmente solitária nos momentos mais delicados e importantes de sua vida. Esta, pelo menos, berrava mais. Ameaçava-lhe com o abandono, com greve, e com a violência “ – que eu não sou mulher de qualquer sujeito não, viro a mesa e a cadeira em cima dos teus cornos, seu fiiilho da....

        Saber que se pode morrer em 6 meses, estressa qualquer um. A princípio, se tem vontade de obedecer, cumprir as determinações médicas, aquietar-se. Qual! Fazer o que? Faço esta orquestração toda, e paff! Caio em 4 meses, sem proveito, sem ter vivido o resto que me cabe, sem ter resolvido todas as questões, eu hem? Vou mais é para a esbórnia. Palavrinha bonita, que junta o exemplo da idéia à ação. 

        “ − O que é que este filho de uma boa puta está fazendo? Cruza logo, ôôô cagão!” E toma gol, e toma aplauso. Primeiro tempo. Descansar, descansar para que? “_ O que é isso Sérgio, se aquieta homem! Tá correndo demais. Sê não é mais garoto não! “ Garoto?"

        Eu achava que era um bom garoto, destes educados, apiedado dos seres humanos miseráveis das esquinas, acreditando em tudo e em todos. Quando vim para a cidade grande, aí é que o mundo se apresentou a mim. Ou melhor, descobri que o mundo que eu conhecia não existia. Fiquei atarantado com tanta coisa nova e errada. Era tudo ou nada para aquele garoto, e ele abraçou o tudo! Se fez um homem. Se é para isso que serve um homem, eu servi. Servi a família toda. Dependem de mim para tudo, e eu? Dependo agora de um coração doente. Vai entender. Achei que era só trabalhar, e tal e coisa; qual! 

       “ – Vai, vai....” pediu a bola, com um chamado arrítmico, e com a certeza de quem da bola não apanha. Deu um bonito chapéu no zagueiro, matou no peito a bola que lhe fugia ao controle, e conforme desceu a meia altura, de voleio, mandou-a no ângulo esquerdo do pobre goleiro. Ainda caindo deu um grito, de dor, de fôlego acabado, de coração partido, de peito arriado. Deu um grito só, grito de guerreiro, não de fuga. Não pediu socorro, nem pediria. Ainda zonzo e deitado no chão, enquanto, cercado pelos outros jogadores, pensava em levantar, divisou no canto direito do campo um  séquito de estranhas mulheres, todas vestidas de negro, com véus a cobrir seus rostos, caminhando em passos cadenciados. Várias, dirigiam-se para aonde estava. Sorriu de satisfação. Elas vieram, as suas carpideiras! Haveria então quem o velasse e chorasse. Foi sentindo as forças minguarem,  enquanto em seus ouvidos, o canto das mulheres  chegava em tom suave e brando, misturados aos elogios, gritos e festejos dos companheiros do futebol. Sentiu-se mortiço. Ouvia melodiosamente em uníssono:

        “ – Nossa Senhora socorrei, amparai e recebei, a quem seu filho recomendar. Filho do Deus altíssimo, que amamos e ao qual glorificamos, em vida e na morte, dái-nos a justa herança, pelas boas ações que fizemos, misericórdia pelos pecados que cometemos, para que no dia em que escolhestes,  teus anjos venham levar, levar, levar; este pobre coitado, que já cumpriu com seu destino. Por isso aqui viemos chorar, chorar, chorar ...”

        Ainda teve tempo de olhar para os companheiros, e mesmo com uma agonia lhe afrontando o peito e um grito de dor travado na garganta, balbuciou suas últimas palavras:
        “ – Ganhamos de quanto?"


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